A Menina que Brincava de Ser Viúva
Florence Scovel Shinn observava atentamente a relação entre a imaginação, os sentimentos e os acontecimentos da vida. Em um de seus livros, ela compartilha a história de uma mulher que conheceu pessoalmente.
Quando era criança, ela adorava brincar de ser viúva.
Enquanto outras crianças brincavam de princesa, professora ou enfermeira, ela se vestia de preto, colocava um longo véu preto sobre a cabeça e representava repetidamente o papel de uma viúva.
Para ela, era apenas uma brincadeira.
Os anos passaram.
Ela cresceu, apaixonou-se profundamente e se casou. Pouco tempo depois, porém, seu marido faleceu. Durante muitos anos, ela vestiu roupas pretas e usou um longo véu negro — exatamente como havia imaginado tantas vezes durante a infância.
Florence acreditava que a imagem repetida de si mesma como viúva havia se gravado profundamente em seu subconsciente e, com o passar do tempo, acabou sendo refletida em sua própria experiência de vida.
“Toda identidade que aceitamos repetidamente em nosso interior torna-se uma direção que nossa vida naturalmente começa a seguir.”
— Edmar Sasaki
O Sentimento é a Ponte
Independentemente da forma como interpretamos essa história, ela nos convida a refletir sobre algo profundamente importante.
Aquela menina não estava apenas imaginando uma cena.
Ela estava assumindo uma identidade.
Por alguns instantes, ela realmente sentia que era aquela pessoa.
E talvez esse seja o ponto mais importante.
Não é apenas a imagem mental que influencia a nossa vida.
É o estado interior que acompanha essa imagem.
Nessa história, essa impressão parece ter sido construída por meio da repetição. Ela retornava, repetidas vezes, ao mesmo papel, à mesma ideia e ao mesmo estado emocional.
Mas a vida nem sempre funciona dessa maneira.
Às vezes, uma única experiência, carregada de intensa emoção, pode deixar uma marca profunda na mente.
Uma frase ouvida na infância.
Uma rejeição dolorosa.
Uma humilhação.
Um diagnóstico médico.
Ou até mesmo um momento de extraordinária alegria.
O acontecimento em si pode durar apenas alguns minutos.
Pode até parecer que o esquecemos.
No entanto, a impressão permanece.
E, muitas vezes, continuamos reforçando esse estado interior por meio dos pensamentos, das reações e dos sentimentos que vêm depois.
Por isso, o fator decisivo nem sempre é quantas vezes algo é imaginado.
O fator decisivo é o quanto aquilo se torna real dentro de nós.
Algumas impressões são construídas pela repetição.
Outras surgem em um único momento marcante.
Mas ambas seguem o mesmo princípio.
Primeiro, tornam-se parte do nosso mundo interior.
Depois, encontram uma forma de se expressar em nossa experiência.
Talvez, então, a pergunta mais importante não seja:
“O que estou pensando?”
Mas sim:
“Quem estou sentindo que sou?”
Porque aquilo que sentimos continuamente que somos — ou aceitamos profundamente como verdadeiro — tende a se refletir em nossa vida.
O sentimento é a ponte.
O Sentimento é a Ponte

